Olá leitores
Verdades,meias verdades ,mentiras e outras variações
Por Alexandre Vicente
Dizer a verdade é fácil, o duro é estar preparado para a reação à ela. Principalmente porque a verdade tem três lados. A sua, a do outro e a dos fatos. Em Direito, nos tempos em que advogava (sim, atuei como advogado por dez anos até perceber que ali não era o meu lugar), costumava brincar quando alguém me pedia a opinião sobre determinado assunto. Minha resposta era direta:
- Estou do lado de quem?
Isso era importante e parte fundamental do trabalho. Eu precisava escolher uma verdade. E naturalmente, escolheria a que favorecesse o meu possível cliente.
A verdade não é propriamente o antônimo da mentira. A verdade tem matizes. Como a meia verdade, ela não chega a ser uma mentira, mas tem uma vantagem: poupa um pouco, aquele que precisa saber da verdade, mas não suportaria ouvi-la de uma só vez. Você conta o principal, mas não precisa entrar em detalhes. É como a piada do gato que subiu no telhado. O caboclo liga pro dono do sítio e diz:
- Patrão, seu gato morreu.
O patrão, assustado e surpreso com a forma como a notícia foi dada, assume uma ar de professor e explica ao caboclo que não é assim que se dá uma notícia dessas.
- Olha – diz, ele – quando acontece essas coisas você não pode dizer assim… de supetão. É preciso preparar o sujeito para receber a malfadada.
- Ah, é? E como faço isso, sô?
- Você poderia ter dito: Patrão seu gato estava brincando, subiu no telhado, as telhas estavam escarregadias ele acabou escorregando e caindo. Ainda fizemos tudo para salvá-lo, mas não teve jeito. Ele acabou morrendo.
- Ahh!! Tã bão, então.
Duas semanas depois o caboclo liga pro patrão e começa a falar:
- Patrão, sua mãe subiu no telhado…
Perceberam a diferença entre a verdade e a meia verdade?
A mentira, não. A mentira é a rainha dos pecados. Ela engana. Ela não omite nem tem por finalidade aliviar sofrimento. Ela é ardilosa e quer enganar. Tudo bem. Alguns podem até falar que existe a mentirinha branca, como Papai Noel e Coelhinho da páscoa, mas isso não é mentira. É verdade. Por isso todo ano de eleição acabo votando com a maior fé em meus candidatos.
A agenda
Luiz Fernando Veríssimo
Um homem chamado Cordeiro abre a agenda em cima da sua mesa de trabalho
e vê escrito: "Comprar arma”.Ele não se lembra de ter escrito aquilo. Como
tem agenda justamente para ajudá-lo a se lembrar das coisas, compra uma arma,
mesmo não sabendo para quê. No dia seguinte, vê na agenda: "Marcar
almoço com Rodrigues.” Mais uma vez, não se
lembra de ter escrito aquilo, nem tem qualquer razão para almoçar com o
canalha do Rodrigues. Mas marca o almoço. Durante o qual ouve do canalha Rodrigues a notícia de que pretende se afastar da
companhia e vender sua parte ao canalha do Pires, que assim terá a
maioria e mandará na companhia, inclusive no Cordeiro. Cordeiro insiste para que Rodrigues venda sua
parte a ele e não ao Pires, mas Rodrigues ri na sua cara e ainda por
cima não paga a sua parte no almoço. Naquela tarde, Cordeiro vê na sua
agenda: "Matar Rodrigues. Simular assalto." E o dia e a hora em que
deve acontecer o assassinato, sublinhados com força.E na mesma folha:
"Providenciar álibi: lancha."Lancha?
Cordeiro vira a página. Lá está o plano, meticulosamente detalhado. Sair com
a lancha no domingo, assegurando-se de que todos no clube o vejam sair com a
lancha,encostá-la em algum lugar ermo onde deixou seu carro no dia anterior, ir
de carro até a casa de Rodrigues, matá-lo,
jogar a arma fora, voltar de carro para a lancha e voltar de lancha para
o clube, onde todos o veriam chegar como se nada tivesse acontecido. É o que
faz. Na segunda-feira, Cordeiro arregala os olhos e finge estar chocado
quando chega afirma e ouve do Pires a notícia de que houve um assalto no fim de
semana e o Rodrigues foi baleado, e está morto.Pires revela que estava desconfiado de que Rodrigues iria vender sua
parte na companhia a Cordeiro.
Pretendia marcar um almoço para discutir o assunto com o canalha
Minhas ferias
Eu, minha mãe, meu pai, minha irmã (Su) e meu cachorro (Dogman) fomos fazer camping. Meu pai decidiu fazer camping este ano porque disse que estava na hora de a gente conhecer a natureza de perto, já que eu, a minha irmã (Su) e o meu cachorro (Dogman) nascemos em apartamento, e, até cinco anos de idade, sempre que via um passarinho numa árvore, eu gritava “aquele fugiu!” e corria para avisar um guarda; mas eu acho que meu pai decidiu fazer camping depois que viu os preços dos hotéis, apesar da minha mãe avisar que, na primeira vez que aparecesse uma cobra, ela voltaria para casa correndo, e minha irmã (Su) insistir em levar o toca-disco e toda a coleção de discos dela, mesmo o meu pai dizendo que aonde nós íamos não teria corrente elétrica, o que deixou minha irmã (Su) muito irritada, porque, se não tinha corrente elétrica, como ela ia usar o secador de cabelo? Mas eu e o meu cachorro (Dogman) gostamos porque o meu pai disse que nós íamos pescar, e cozinhar nós mesmos o peixe pescado no fogo, e comer o peixe com as mãos, e se há uma coisa que eu gosto é confusão. Foi muito engraçado o dia em que minha mãe abriu a porta do carro bem devagar, espiando embaixo do banco com cuidado e perguntando “será que não tem cobra?”, e o meu pai perdeu a paciência e disse “entra no carro e vamos embora”,, porque nós ainda nem tínhamos saído da garagem do edifício. Na estrada tinha tanto buraco que o carro quase quebrou, e nós atrasamos, e quando chegamos no lugar do camping já era noite, e o meu pai disse “este parece ser um bom lugar, com bastante grama e perto da água”, e decidimos deixar para armar a barraca no dia seguinte e dormir dentro do carro mesmo; só que não conseguimos dormir, porque o meu cachorro (Dogman) passou a noite inteira querendo sair do carro, mas a minha mãe não deixava abrirem a porta, com o medo de cobra; e no dia seguinte tinha a cara feia de um homem nos espiando pela janela, porque nós tínhamos estacionado o carro no quintal da casa dele, e a água que o meu pai viu era a piscina dele e tivemos que sair correndo. No fim conseguimos um bom lugar para armar a barraca, perto de um rio. Levamos dois dias para armar a barraca, porque a minha mãe tinha usado o manual de instruções para limpar umas porcarias que meu cachorro (Dogman) fez dentro do carro, mas ficou bem legal, mesmo que o zíper da porta não funcionasse e para entrar ou sair da barraca a gente tivesse que desmanchar tudo e depois armar de novo. O rio tinha um cheiro ruim, e o primeiro peixe que nós pescamos já saiu da água cozinhando, mas não deu para comer, e o melhor de tudo é que choveu muito, e a água do rio subiu, e nós voltamos pra casa flutuando, o que foi muito melhor que voltar pela estrada esburacada; quer dizer que no fim tudo deu certo.
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