O Despertar do Poeta
O mundo atual nunca poderá entender plenamente o afeto que, vibrando-me dolorosamente a fibras do coação, me arrastava para as solidões marinhas da ponta-do-mar, quando os outros homens nos povoados se reuniam á roda do lar aceso e falavam das suas mágoas infantis e dos seus contentamentos de um instante.
E que me importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra gerações que compreenderão as palavras do presbítero.
E que me importa a mim isso? Virão um dia a esta nobre terra gerações que compreenderão as palavras do presbítero.
Arrastava-me para uma solidão, um sentimento íntimo, o sentimento de haver acordado, vivo ainda, deste sonho febril chamadovida, e de que hoje ninguém acorda, senão depois de morrer. Sabeis o que é esse despertar de poeta?
É o ter entrao na existência com um coração que transborda de amor sincero e pro por tudo quanto o rodeia e ajuntarem-se os homens e lançarem-lhe dentro do seu vaso de inocência lodo, amargura e maldade e, depois , rrem-se dele;
É o ter dado às palavras - virtude, amor, pátria e glória - uma significação profunda e, depois de haver buscado por anos a realidade delas neste mundo, só encontar aí hipocrisia, egoísmo e infâmia;
É o perceber à custa de amarguras que o existir é padecer, o pensar descrer, o expreimentar desenganar-se, e a esprença nas coisas da terra uma cruel mentira de nossos desejos, um fumo tênue que ondeia em horizonte aquém do qual está assentada a sepultura.
Este é o acordar do poeta. Depois disso, nos abismos da sua alma só há para mandar aos lábios um sorriso de desprezo em resposta às palavras mentidas dos que o cercam, ou uma voz de maldição violentamente sincera para julgar as ações dos homens.
É então que para ele há inicamente uma vida real - a íntima; unicamente uma linguagem compreensível - a do bramido do mar e do rugido dos ventos; unicamente uma convência não travada de traição - a da solidão.
- Alexandre Herculano
Nenhum comentário:
Postar um comentário